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Sedentarismo Cognitivo: O Risco Invisível na Era da Inteligência Artificial

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Sedentarismo Cognitivo: O Risco Invisível na Era da Inteligência Artificial

Praticas atividade física de forma regular? És obrigado a fazê-lo ou fazes voluntariamente? A maior parte das pessoas nunca se questionou sobre isto, mas é evidente que hoje a atividade física é uma escolha e não uma imposição. Esta simples observação permite abrir espaço para uma reflexão mais ampla: se já compreendemos os riscos do sedentarismo físico, estaremos igualmente atentos aos riscos emergentes de um possível sedentarismo cognitivo na era da Inteligência Artificial?

Há milhares de anos a situação era muito diferente. O ser humano corria para caçar, corria para não ser caçado, guerreava frequentemente e vivia em constante movimento. A atividade física era inevitável. Com o tempo, porém, as grandes revoluções tecnológicas mudaram radicalmente este cenário. A revolução agrícola fixou populações e trouxe maior segurança, a revolução industrial deslocou milhões para as cidades e introduziu meios de transporte que tornaram a deslocação humana cada vez menos dependente do esforço físico. A par de uma alimentação menos equilibrada, nasceu o sedentarismo moderno, responsável pelo aumento de doenças como a obesidade e os problemas cardiovasculares. Foi esta tomada de consciência — lenta, mas consistente — que levou tantas pessoas a integrar o exercício físico no quotidiano como forma de compensar um ambiente que deixa de exigir movimento.

Hoje vivemos uma nova transformação: a revolução da Inteligência Artificial. E, ao contrário das anteriores, que substituíam sobretudo esforço físico, esta atua diretamente no centro da nossa atividade mental. É a primeira tecnologia com potencial para funcionar não apenas como acelerador da eficiência humana, mas como substituto de processos cognitivos essenciais. Ainda é cedo para compreender plenamente todas as implicações, mas já é evidente que a IA toca esferas que considerávamos exclusivamente humanas.

Pensar, criar, criticar e imaginar são capacidades que definem o que significa ser humano. São elas que nos permitiram evoluir, adaptar-nos e resolver problemas complexos ao longo da história. No entanto, a IA — e em particular a IA Generativa — opera precisamente nessas dimensões. Produz textos, imagens, ideias e soluções com uma fluidez que rivaliza, em muitos casos, com a criatividade e o raciocínio humanos. O que antes era domínio exclusivo da nossa mente é agora partilhado com sistemas automáticos capazes de realizar tarefas intelectuais com grande autonomia.

Apesar de ainda estarmos numa fase inicial de adoção destas ferramentas, começam a surgir estudos que alertam para possíveis consequências cognitivas do seu uso intensivo: diminuição da capacidade de raciocínio, empobrecimento do pensamento crítico e erosão progressiva da criatividade. Não se trata de alarmismo, mas de sinais que merecem atenção, sobretudo se tivermos em conta a nossa natureza. O ser humano tende a escolher o caminho mais simples e eficiente; por isso, existe o risco real de delegarmos na IA não apenas tarefas repetitivas, mas o próprio esforço de pensar.

No curto prazo isto parece vantajoso; no médio prazo instala-se um sedentarismo cognitivo subtil, mas profundo: menos esforço mental, menor autonomia intelectual e menor treino das capacidades que nos definem enquanto seres pensantes. É possível que desenvolvamos novas competências, como a capacidade de utilizar e manipular estas ferramentas com criatividade, mas a pergunta permanece: queremos que a IA substitua as funções que moldam a nossa humanidade?

A diferença entre o sedentarismo físico e o cognitivo é clara. O primeiro já é amplamente reconhecido e combatido; o segundo está ainda a emergir. Hoje praticamos exercício porque sabemos o que acontece se não o fizermos. Existe ciência, cultura e políticas públicas que reforçam esta consciência. No domínio cognitivo, porém, estamos apenas no início. Nem as pessoas, nem as organizações compreenderam ainda plenamente os riscos do uso acrítico da IA. Poucas empresas possuem estratégias de adoção responsáveis e sustentáveis, e mesmo as que já estruturaram planos raramente consideram o impacto que estas ferramentas podem ter na preservação das capacidades humanas que pretendem potenciar.

Estamos, portanto, num momento decisivo. Tal como praticamos exercício físico para contrariar um ambiente que nos empurra para o sedentarismo, também devemos começar a praticar exercício cognitivo para evitar que a IA pense sempre por nós. Sempre que recorremos ao ChatGPT ou a qualquer outra ferramenta de IA, vale a pena fazer uma pausa e refletir: estamos a usar a IA para expandir a nossa capacidade mental ou para a substituir? A resposta a esta pergunta influenciará de forma decisiva o tipo de humanidade que queremos preservar nesta nova era tecnológica.

por Milton Cabral - DIGI4FASHION @ CITEVE

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